Somente Jesus revela o que Deus é, e não o contrário.
Optamos, portanto, pelo caminho que prioriza Jesus (os evangelhos)
para ler as Escrituras e toda a nossa fé. Se não está em Jesus
e na sua vida humana, não há consonância com o Evangelho.
Essa opção,
além
de razoável e segura em muitos sentidos,
encontra eco nas Escrituras e na Tradição.
(Alice
Kaiser & André Anéas, em Pastoreando no caos)
No contexto
teológico, o termo alcança o sentido de conversão, uma completa transformação
do pensamento, cuja abrangência se estende para além de uma mudança de
mentalidade alcançando, portanto, a mudança de comportamento, de atitude, de
maneira de ser e, por conseguinte, de viver. E é na dimensão teológica que se
encaixa a minha experiência.
É sabido que no
cenário evangélico é bastante comum o testemunho de crentes acerca da sua
conversão. Como a narrativa de Saulo, na estrada de Damasco, há muitos
testemunhos que evidenciam uma experiência espiritual e apontam para uma
transformação irrefutável de conduta e de vida. E, ainda que nem todos os
testemunhos venham coroados de sinais extraordinários, há, sem dúvida, a
expressão de novas convicções acerca do caminho encontrado por meio da audição
da palavra, da leitura e reflexão das Escrituras, ou, por desencantamento no
credo de origem, pelos estigmas da religiosidade, pela busca de uma
espiritualidade específica entre outras razões. Acredito, pois, que haja um
marco significativo na jornada individual que caracteriza o crente e a sua fé.
Existem,
entretanto, aqueles(as) que nasceram em lar evangélico e, por isso, não há como
definir quando e como se deu o encontro com o evangelho nos moldes do
protestantismo, e a exemplo dos testemunhos publicizados. Dessa maneira, ocorre-me
pensar se a conversão nasce necessariamente imbuída dos ensinamentos domésticos
e do convívio religioso que sustêm a criança vida a fora; ocorre-me pensar,
ainda, se as pessoas aqui incluídas, com o decorrer da maturidade (também
espiritual), não teriam vivenciado algum tipo de reencontro ou de reconversão
no próprio contexto. Porventura não teriam vivenciado, em algum momento, uma
experiência que estabelecesse uma ratificação do credo que foi seu berço?
Esclareço,
portanto, à pessoa leitora, que faço parte deste segmento – dos desde sempre crentes, “a filha do
crente” e “a filha do pastor” – porque desde a mais tenra idade estive
em cultos domésticos, em escola bíblica dominical, nos cultos durante a semana,
nos cultos celebrativos, enfim, em templos evangélicos e em contato com os
textos bíblicos.
Isso posto, os
meus escritos têm como horizonte tentar esmiuçar o caminho percorrido
desde sempre até o ponto em que hoje me encontro, uma cristã cuja base de fé se
caracteriza pelos ensinamentos de Jesus Cristo de Nazaré, o Galileu – que
chegaram até mim desde cedo, não obstante tenham sido ressignificados a partir
de uma releitura dos textos bíblicos e da compreensão do Evangelho como o Reino
de Deus que começa aqui e agora e, certamente, se estenderá para além dos
limites do mundo dos sentidos.
Dito tudo isso, prossigo a minha narrativa
retomando o ano 2020, quando a pandemia da Covid-19 impôs uma outra rotina com
sérias implicações sobre corpos e mentes. Não diferente de outros seres
humanos, vivi a angústia de uma incerteza maior em relação ao porvir e, como
mecanismo de defesa, comecei a dar ouvidos às vozes que traziam alento, ainda
que não fugissem da realidade tão ameaçadora. E, nesse contexto, enxerguei as
periferias existenciais em que habitam seres humanos assim como eu, pessoas atravessadas
por feridas mal curadas, ou ainda por isolamento, indiferença ou quaisquer
outras formas de exclusão, a exemplo de fome, miséria, dores do corpo e da alma,
enfim.
A audição de vozes potentes desencadeou um
processo de análise e reflexão acerca da condição humana na perspectiva cristã
diante do cenário devastador da pandemia no Brasil e no mundo. Esse foi o fio
condutor que, gradativamente, guiou meus pensamentos e, por conseguinte, a
minha atitude em revisitar os escritos fundantes da minha fé – com um olhar
mais acurado e despido de religiosidades –, da minha crença nos ensinamentos de
Jesus Cristo de Nazaré. Assim, foram dados os primeiros passos que os nomeio
como o estranhamento de mim mesma enquanto uma cristã desigrejada, até então
imersa na aparente comodidade de não pertencer.
Aos poucos, quase que imperceptivelmente, nasce
o desejo de pertencimento, de ser parte, de ser “comunidade” com a compreensão
inequívoca do sentido dessa palavra; de congregar com aqueles(as) que comungam
as mesmas convicções, compartilham dores, dúvidas e esperança. Lenta e
silenciosamente acontece o despertar do significado daquilo que tantas vezes
ouvi – Deus é Amor –, embora o que tenha ficado internalizado tenha sido a
ideia de um Deus que é Amor, mas que, no fim de tudo, o que prevalecia era o
Deus que também é justiça. Justiça no sentido de implacável punição e vingança.
Lenta e silenciosamente desponta um jeito novo de ser cristã, aliado à
compreensão de que sou uma filha amada de Deus agraciada pelos “ajustes”
divinos. A palavra justiça ganha um novo sentido, ou seja, o seu próprio
sentido.
Dei-me conta de quão profundamente fui
atravessada pela religiosidade tanto no corpo quanto na alma. Ainda sou, mas sigo
em processo de cura. Cura pela reflexão (acerca do que ouvi e da forma como li
os textos bíblicos); pela fala (quando de modo oportuno e conveniente posso
verbalizar as vivências); e pela escrita (a exemplo deste texto). Digo,
portanto, que os efeitos da religiosidade são extremos porque arraigados e, por
isso, duradouros. Não basta saber identificá-los. Faz-se necessário lançar mão
de múltiplos recursos para desfazer-se de nós tão cingidos.
Todavia, é importante mencionar quão libertador
é também esse processo, ainda que eu tenha percorrido somente uma parte do
caminho. E, aqui, convém citar Alberto Caeiro para dizer que essa prosa se dá
com a convicção de quem sabe que é “recém-nascido para a completa novidade do
mundo”. Convém registrar, também, que não me apraz apontar culpados pelas
minhas feridas, uma vez que não é possível ignorar o contexto histórico em que fui
educada secular e religiosamente. Para além disso, é preciso considerar a
dimensão pessoal que me caracteriza. Falo acerca da minha timidez e
introspecção extremadas. Isso implica considerar a soma de diversos e
significativos aspectos que dão um contorno específico à minha história.
Olhando bem lá atrás, enxergo quando comecei a
questionar comigo mesma o que ouvia como premissas e conceitos indubitáveis,
exaltação de uma fé que não permitia dúvidas com base na leitura literal da
Bíblia – alicerces fundamentalistas; e, por conseguinte, evoco a estranheza das
emoções que me inundavam num misto de culpa e medo. Isso, sem dúvidas,
deixou-me marcas profundas, doloridas e, por isso, duradouras. No entanto, tais
marcas – enquanto denunciam sofrimento – também evocam perceptíveis vislumbres
de libertação, como o anúncio da reconversão necessária. Compreendi, portanto,
que todas as teologias são obras humanas. A proposta do Reino de Deus trazida
por Jesus está para além das estruturas de domínio instaladas ao longo dos
séculos por fariseus, profetas, apóstolos e arautos da fé supostamente
revestidos de santidade.
Como me sinto hoje? Com um crescente
estranhamento de mim mesma no sentido inverso do que sentia até o início desse
caminho de (re)conversão. Louvo muito a Deus pela oportunidade que a mim foi
dada para retomar a leitura do mapa do caminho que agora não hesito em seguir.
Na cabeça e no coração, pensamentos e sentimentos têm se definido em meio às
dúvidas que me rodeiam, às constantes incertezas, aos residuais religiosos e,
sobretudo, à convicção de que estou no caminho que me dá reconhecimento e
identidade, livre dos fantasmas do medo e da culpa. Sou uma filha amada de
Deus.
Reafirmo, portanto, que estou no caminho e que
a minha (re)conversão acontece dia a dia porque a minha espiritualidade é
peregrina.












































































