sexta-feira, 24 de março de 2017

Inteligência



Uma frente avançada das ciências, hoje, é constituída pelo estudo do cérebro e de suas múltiplas inteligências. Alcançaram-se resultados relevantes, também para a religião e a espiritualidade. Enfatizam-se três tipos de inteligência. A primeira é a inteligência intelectual, o famoso QI (Quociente de Inteligência), ao qual se deu tanta importância em todo o século XX. É a inteligência analítica pela qual elaboramos conceitos e fazemos ciência. Com ela organizamos o mundo e solucionamos problemas objetivos.
A segunda é a inteligência emocional, popularizada especialmente pelo psicólogo e neurocientista de Harvard David Goleman, com seu conhecido livro A Inteligência emocional (QE = Quociente Emocional). Empiricamente mostrou o que era convicção de toda uma tradição de pensadores, desde Platão, passando por Santo Agostinho e culminando em Freud: a estrutura de base do ser humano não é razão (logos) mas é emoção (pathos). Somos, primariamente, seres de paixão, empatia e compaixão, e só em seguida, de razão. Quando combinamos QI com QE conseguimos nos mobilizar a nós e a outros.
A terceira é a inteligência espiritual. A prova empírica de sua existência deriva de pesquisas muito recentes, dos últimos dez anos, feitas por neurólogos, neuropsicólogos, neurolinguistas e técnicos em magnetoencefalografia (que estudam os campos magnéticos e elétricos do cérebro). Segundo esses cientistas, existe em nós, cientificamente verificável, um outro tipo de inteligência, pela qual não só captamos fatos, ideias e emoções, mas percebemos os contextos maiores de nossa vida, totalidades significativas, e nos faz sentir inseridos no Todo. Ela nos torna sensíveis a valores, a questões ligadas a Deus e à transcendência. É chamada de inteligência espiritual (QEs = Quociente Espiritual), porque é próprio da espiritualidade captar totalidades e se orientar por visões transcendentais.
Sua base empírica reside na biologia dos neurônios. Verificou-se cientificamente que a experiência unificadora se origina de oscilações neurais a 40 herz, especialmente localizada nos lobos temporais. Desencadeia-se, então, uma experiência de exaltação e de intensa alegria como se estivéssemos diante de uma Presença viva.
Ou inversamente, sempre que se abordam temas religiosos, Deus ou valores que concernem o sentido profundo das coisas, não superficialmente mas num envolvimento sincero, produz-se igual excitação de 40 herz.
Por essa razão, neurobiólogos como Persinger, Ramachandran e a física quântica Danah Zohar batizaram essa região dos lobos temporais de ''o ponto Deus''.
Se assim é, podemos dizer em termos do processo evolucionário: o universo evoluiu, em bilhões de anos, até produzir no cérebro o instrumento que capacita o ser humano perceber a Presença de Deus, que sempre esteve lá embora não perceptível conscientemente. A existência desse ''ponto Deus'' representa uma vantagem evolutiva de nossa espécie humana. Ela constitui uma referência de sentido para a nossa vida. A espiritualidade pertence ao humano e não é monopólio das religiões. Antes, as religiões são uma das expressões desse ''ponto Deus''.

(Leonardo Boff)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Anoitecer

A luz desmaia num fulgor d’aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente... 
E eu que não creio em nada, sou mais crente 
Do que em menina, um dia, o fui... outrora... 

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora, 
Tenho bênçãos de amor pra toda a gente! 
E a minha alma, sombria e penitente 
Soluça no infinito desta hora!

Horas tristes que vão ao meu rosário... 
Ó minha cruz de tão pesado lenho! 
Ó meu áspero e intérmino Calvário! 

E a esta hora tudo em mim revive: 
Saudades de saudades que não tenho... 
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

Florbela Espanca
‘A Mensageira das Violetas’

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Convite (Oriah Moun)



Não me importa o que você faz para sobreviver. Quero saber qual a sua dor e se você tem coragem de encontrar o que seu coração anseia. Quero saber se você se arriscaria parecer com um louco por amor, pelos seus sonhos e pela aventura de estar vivo.

Não me importa saber quais planetas estão quadrando sua lua. Quero saber se você tocou o âmago de sua tristeza, se as traições da vida lhe ensinaram, ou se você se omitiu por medo de sofrer. Quero saber se você consegue sentar-se com as dores, minhas ou suas, sem se mexer para escondê-las, diluí-las ou fixá-las. Quero saber se você pode conviver com a alegria, minha ou sua, se pode dançar com selvageria e deixar o êxtase preenchê-lo até o limite, sem lembrar de suas limitações de ser humano.

Não me importa se a história que você me conta é verdadeira. Quero saber se você é capaz de desapontar o outro para ser verdadeiro para si mesmo, se pode suportar a acusação da traição e não trair a sua própria alma. Quero saber se você pode ser fiel e consequentemente fidedigno. Quero saber se você pode enxergar a beleza mesmo que não sejam bonitos todos os dias, e se pode perceber na sua vida a presença de Deus, ou do cosmos, ou do que acredite que seja maior e transcendente. Quero saber se você pode viver com as falhas, suas e minhas, e ainda estar em pé na beira do lago e gritar para o prateado da lua cheia…. “Sim”!

Não me importa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se você pode levantar depois de uma noite de pesar e desespero, exausto, e fazer o que tem de fazer para as crianças.

Não me importa saber quem você é, ou como veio parar aqui. Quero saber se você estará ao meu lado no centro do fogo, sem recuar.

Não me importa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que sustenta o seu interior quando todo o resto desaba. Quero saber se você pode estar só consigo mesmo e se verdadeiramente gosta da companhia que carrega em seus momentos vazios.
Estarei escutando se e quando quiser me contar. É só chamar ou avisar.

sábado, 5 de novembro de 2016

Ter uma catedral na cabeça

O texto a seguir foi retirado do livro Falar de amor à beira do abismo, de Bóris Cyrulnik. Foi postado numa rede social por Clarissa Paiva e eu me encantei.
No caminho de Chartres, Péguy vê à beira da estrada um homem quebrando pedras com grandes golpes de maço. Seu rosto exprime infelicidade, e seus gestos, raiva. Péguy se detém e  pergunta:
O que o Senhor está fazendo?
Como pode ver, não encontrei outra profissão senão esta estúpida e dolorosa responde-lhe o homem.
Um pouco mais adiante, Péguy percebe outro homem, que também quebra pedras, mas seu rosto está calmo e seus gestos harmoniosos.
O que está fazendo, senhor? pergunta-lhe Péguy.
Pois bem. Ganho a vida graças a esta profissão cansativa, mas que tem a vantagem de ser ao ar livre respondeu-lhe ele.
Mais adiante, um terceiro quebrador de pedras irradia felicidade. Sorri ao descer o maço e olha com prazer os fragmentos de pedra.
O que está fazendo? pergunta-lhe Péguy.
Responde esse homem:
Estou construindo uma catedral.
A pedra desprovida de sentido submete o infeliz à realidade, ao imediato que nada mais oferece à compreensão senão o peso do maço e o sofrimento do golpe; ao passo que aquele que tem uma catedral na cabeça transfigura a pedra e experimenta um sentimento  de elevação e de beleza provocado pela imagem da catedral de que já se orgulha.
 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Acerca do lugar em que nasci


Minha Terra
                                       (Cosme Lemos)

Madrugava no Céu. Vinha perto a manhã,
Quando São Pedro abriu serenamente,
A Porta Eterna, branca de luar.
Amparado num véu de nuvem alvinitente,
Róseo qual maçã,
Um anjinho esperava a soluçar.
- Entra - disse-lhe o Santo.
- Por que choras tanto?!
- Senhor, eu quero voltar!
- Voltar? Queres voltar do Céu, anjinho à toa?!
E a terra onde vivias era assim tão boa?!
- A terra onde eu vivi é tão formosa
Como não pode haver recanto igual.
A natureza ali, feita de rosas,
É u'a perene festa tropical!
Ela é tão alta! Lembra uma palmeira erguida
Muito bela e sobranceira
Por sobre as outras terras qual rainha!
O Céu que a cobre é feito só de estrelas,
Vendo-se aqui e ali uma fitinha
De espaço muito azul, como a tecê-las.
À margem da lagoa cristalina
Ergue-se, altiva e pequenina,
Uma ermida à Virgem do Rosário.
Nos pomares e jardins, em desadoro,
Cantam nuvens douradas de canários,
De pintassilgos e de encantos d'ouro.
Tempestades de loucos furacões
Que revolvem os campos dos sertões
Não alcançam o azul da serrania!
A brisa é tão cheirosa e tão macia,
Que parece soprada pelos lírios!
O próprio sol é branco como os círios,
A árvore da vida ali vive a cantar!
No Céu também é bom, mas... deixa-me voltar!
E o Santo pescador, bondoso e comovido,
Lembrando-se talvez de sua Canaã,
Como a sentir o coração ferido de saudade,
Fitando o espaço que a manhã já dourava de luz
Falou com piedade:
- Tu voltarás, meu filho! Eu direi a Jesus
Da saudade que tanto te consome
Mas... essa terra... esse outro Céu...
Qual o seu nome?!
Nisto Jesus chegando de repente
E ouvindo o interrogar do seu discípulo,
Sorrindo, respondeu paternalmente:
- Essa relíquia, Pedro, é no Brasil;
Num pequenino Estado lá no Norte,
Em recanto feliz, pus toda sorte de belezas.
As "Maravilhas das Mil e Uma Noites"
Não valem seus jardins!
Essa terra de sonho e de poesia,
E que tem a inicial a mesma de Maria,
Seu nome é doce... chama-se:
MARTINS!