segunda-feira, 25 de maio de 2026

Que fiz eu da vida? O que não vivi? (ou) Quem fui eu na fila do pão?

 


Tornei-me uma leitora voraz. Aprendi com Etty Hillesum a oração da leitura: Obrigada, ó Deus, por me ensinares a ler cada vez melhor. Sou dada a monólogos densos e contínuos. Filha de um tenente que se tornou pastor, e de uma mulher que tomou para si uma identidade messiânica. Construí minha identidade profissional como Professora de Língua Portuguesa. Nasci em Martins-RN. Observadora e escutadora. Casei com João Bosco. Tive dois filhos que me deram quatro netos. Morei em São Miguel, Luís Gomes, José da Penha e Pau dos Ferros. Sim, nessa sequência. Transitei pelas redes pública e privada de ensino. Desenvolvi as minhas vastices em meio à vasteza da timidez e da escrita terapêutica. Escrevi três livros. Não aprendi a andar de bicicleta. Carrego poucas convicções e muitas dúvidas. Nascida num lar evangélico. Cristã pelos ensinamentos de Jesus Cristo de Nazaré. Fiquei desigrejada por longos anos. Voltei a me encantar com uma comunidade de fé ao conhecer a Betesda-SP; e, por isso, #SouBetesdasemfronteiras. Saí do Brasil uma vez: fui ao Egito e a Israel (via Londres). Sempre amei olhar para cima – ver a lua, as estrelas, o pôr do sol. Não aprendi a dirigir. O silêncio me traz paz. Há diálogo no meu silêncio. A solitude me encanta. A ansiedade me encontrou e me faz padecer. Não recebi uma rosa vermelha de Roberto Carlos. Aos sessenta e dois anos me encantei com o Pilates. A psicoterapia é uma grande aliada na busca do autoconhecimento. Quisera fazer uma viagem a bordo de um transatlântico. Plantei uma árvore. Costumo sonhar de olhos abertos. Não aprendi a ser pragmática. Amo chuva e o cheiro de terra molhada. Vejo beleza em tempos nublados. Meu companheiro de jornada fez a grande viagem quando completamos quarenta e um anos de vida em comum. Sempre enxerguei o mundo com um olhar melancólico. Não sou afeita a multidões. Quisera dizer aqui que, contemporânea de Florbela Espanca, tivemos uma prosa acerca dos versos: Sou uma céptica que crê em tudo/uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida/uma indiferente a transbordar de ternura. Padeço de um complexo de inadequação neste mundo. É possível que seja essa a razão pela qual quisera poder registrar, aqui, uma troca de ideias com Fernando Pessoa. Exatamente porque ele sabia sentir e falar sobre Desassossego. Porque o mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Também porque numa litania, disse-nos que nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos – um poço fitando o céu. Costumo perder-me em abstrações. Talvez tudo tenha começado quando, na escola, preferia os substantivos abstratos aos concretos. Os “perrengues” da vida me desconcertam. Não aprendi a ser pragmática. Perfumes fortes me incomodam. Esperar tem sido uma constante nos meus dias. Excesso de luz artificial me incomoda. Trago comigo sempre uma lista de livros desejados. Há também o desejo de reler algumas obras, porém não há mais vida para tanto. Agora, tenho mais passado do que futuro (por isso o tempo verbal no título deste texto). A vastidão das leituras me atravessa. A dor do mundo dói em mim.

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