terça-feira, 26 de maio de 2026

Metanoia


 

Somente Jesus revela o que Deus é, e não o contrário.

Optamos, portanto, pelo caminho que prioriza Jesus (os evangelhos)

 para ler as Escrituras e toda a nossa fé. Se não está em Jesus 

e na sua vida humana, não há consonância com o Evangelho. Essa opção,

além de razoável e segura em muitos sentidos,

 encontra eco nas Escrituras e na Tradição.

(Alice Kaiser & André Anéas, em Pastoreando no caos)


Encontramos o vocábulo metanoia – metanoein (uma palavra composta por meta, que significa além ou mudança, e noia, que significa mente ou pensamento) – na filosofia grega antiga, mais precisamente na filosofia platônica. O filósofo Platão fez uso desse termo na alusão a uma mudança de perspectiva ou de concepção de mundo, de maneira que significava a capacidade de transcender as limitações da mente e alcançar um nível mais elevado de consciência. Justamente por isso, gosto de pensar metanoia como expansão da consciência, numa resumida expressão conceitual que reverbera a amplitude do seu sentido.

No contexto teológico, o termo alcança o sentido de conversão, uma completa transformação do pensamento, cuja abrangência se estende para além de uma mudança de mentalidade alcançando, portanto, a mudança de comportamento, de atitude, de maneira de ser e, por conseguinte, de viver. E é na dimensão teológica que se encaixa a minha experiência.

É sabido que no cenário evangélico é bastante comum o testemunho de crentes acerca da sua conversão. Como a narrativa de Saulo, na estrada de Damasco, há muitos testemunhos que evidenciam uma experiência espiritual e apontam para uma transformação irrefutável de conduta e de vida. E, ainda que nem todos os testemunhos venham coroados de sinais extraordinários, há, sem dúvida, a expressão de novas convicções acerca do caminho encontrado por meio da audição da palavra, da leitura e reflexão das Escrituras, ou, por desencantamento no credo de origem, pelos estigmas da religiosidade, pela busca de uma espiritualidade específica entre outras razões. Acredito, pois, que haja um marco significativo na jornada individual que caracteriza o crente e a sua fé.

Existem, entretanto, aqueles(as) que nasceram em lar evangélico e, por isso, não há como definir quando e como se deu o encontro com o evangelho nos moldes do protestantismo, e a exemplo dos testemunhos publicizados. Dessa maneira, ocorre-me pensar se a conversão nasce necessariamente imbuída dos ensinamentos domésticos e do convívio religioso que sustêm a criança vida a fora; ocorre-me pensar, ainda, se as pessoas aqui incluídas, com o decorrer da maturidade (também espiritual), não teriam vivenciado algum tipo de reencontro ou de reconversão no próprio contexto. Porventura não teriam vivenciado, em algum momento, uma experiência que estabelecesse uma ratificação do credo que foi seu berço?

Esclareço, portanto, à pessoa leitora, que faço parte deste segmento – dos desde sempre crentes, “a filha do crente” e “a filha do pastor” – porque desde a mais tenra idade estive em cultos domésticos, em escola bíblica dominical, nos cultos durante a semana, nos cultos celebrativos, enfim, em templos evangélicos e em contato com os textos bíblicos.       

Isso posto, os meus escritos têm como horizonte tentar esmiuçar o caminho percorrido desde sempre até o ponto em que hoje me encontro, uma cristã cuja base de fé se caracteriza pelos ensinamentos de Jesus Cristo de Nazaré, o Galileu – que chegaram até mim desde cedo, não obstante tenham sido ressignificados a partir de uma releitura dos textos bíblicos e da compreensão do Evangelho como o Reino de Deus que começa aqui e agora e, certamente, se estenderá para além dos limites do mundo dos sentidos.

Dito tudo isso, prossigo a minha narrativa retomando o ano 2020, quando a pandemia da Covid-19 impôs uma outra rotina com sérias implicações sobre corpos e mentes. Não diferente de outros seres humanos, vivi a angústia de uma incerteza maior em relação ao porvir e, como mecanismo de defesa, comecei a dar ouvidos às vozes que traziam alento, ainda que não fugissem da realidade tão ameaçadora. E, nesse contexto, enxerguei as periferias existenciais em que habitam seres humanos assim como eu, pessoas atravessadas por feridas mal curadas, ou ainda por isolamento, indiferença ou quaisquer outras formas de exclusão, a exemplo de fome, miséria, dores do corpo e da alma, enfim.

A audição de vozes potentes desencadeou um processo de análise e reflexão acerca da condição humana na perspectiva cristã diante do cenário devastador da pandemia no Brasil e no mundo. Esse foi o fio condutor que, gradativamente, guiou meus pensamentos e, por conseguinte, a minha atitude em revisitar os escritos fundantes da minha fé – com um olhar mais acurado e despido de religiosidades –, da minha crença nos ensinamentos de Jesus Cristo de Nazaré. Assim, foram dados os primeiros passos que os nomeio como o estranhamento de mim mesma enquanto uma cristã desigrejada, até então imersa na aparente comodidade de não pertencer.

Aos poucos, quase que imperceptivelmente, nasce o desejo de pertencimento, de ser parte, de ser “comunidade” com a compreensão inequívoca do sentido dessa palavra; de congregar com aqueles(as) que comungam as mesmas convicções, compartilham dores, dúvidas e esperança. Lenta e silenciosamente acontece o despertar do significado daquilo que tantas vezes ouvi – Deus é Amor –, embora o que tenha ficado internalizado tenha sido a ideia de um Deus que é Amor, mas que, no fim de tudo, o que prevalecia era o Deus que também é justiça. Justiça no sentido de implacável punição e vingança. Lenta e silenciosamente desponta um jeito novo de ser cristã, aliado à compreensão de que sou uma filha amada de Deus agraciada pelos “ajustes” divinos. A palavra justiça ganha um novo sentido, ou seja, o seu próprio sentido.

Dei-me conta de quão profundamente fui atravessada pela religiosidade tanto no corpo quanto na alma. Ainda sou, mas sigo em processo de cura. Cura pela reflexão (acerca do que ouvi e da forma como li os textos bíblicos); pela fala (quando de modo oportuno e conveniente posso verbalizar as vivências); e pela escrita (a exemplo deste texto). Digo, portanto, que os efeitos da religiosidade são extremos porque arraigados e, por isso, duradouros. Não basta saber identificá-los. Faz-se necessário lançar mão de múltiplos recursos para desfazer-se de nós tão cingidos.

Todavia, é importante mencionar quão libertador é também esse processo, ainda que eu tenha percorrido somente uma parte do caminho. E, aqui, convém citar Alberto Caeiro para dizer que essa prosa se dá com a convicção de quem sabe que é “recém-nascido para a completa novidade do mundo”. Convém registrar, também, que não me apraz apontar culpados pelas minhas feridas, uma vez que não é possível ignorar o contexto histórico em que fui educada secular e religiosamente. Para além disso, é preciso considerar a dimensão pessoal que me caracteriza. Falo acerca da minha timidez e introspecção extremadas. Isso implica considerar a soma de diversos e significativos aspectos que dão um contorno específico à minha história.

Olhando bem lá atrás, enxergo quando comecei a questionar comigo mesma o que ouvia como premissas e conceitos indubitáveis, exaltação de uma fé que não permitia dúvidas com base na leitura literal da Bíblia – alicerces fundamentalistas; e, por conseguinte, evoco a estranheza das emoções que me inundavam num misto de culpa e medo. Isso, sem dúvidas, deixou-me marcas profundas, doloridas e, por isso, duradouras. No entanto, tais marcas – enquanto denunciam sofrimento – também evocam perceptíveis vislumbres de libertação, como o anúncio da reconversão necessária. Compreendi, portanto, que todas as teologias são obras humanas. A proposta do Reino de Deus trazida por Jesus está para além das estruturas de domínio instaladas ao longo dos séculos por fariseus, profetas, apóstolos e arautos da fé supostamente revestidos de santidade.

Como me sinto hoje? Com um crescente estranhamento de mim mesma no sentido inverso do que sentia até o início desse caminho de (re)conversão. Louvo muito a Deus pela oportunidade que a mim foi dada para retomar a leitura do mapa do caminho que agora não hesito em seguir. Na cabeça e no coração, pensamentos e sentimentos têm se definido em meio às dúvidas que me rodeiam, às constantes incertezas, aos residuais religiosos e, sobretudo, à convicção de que estou no caminho que me dá reconhecimento e identidade, livre dos fantasmas do medo e da culpa. Sou uma filha amada de Deus.

Reafirmo, portanto, que estou no caminho e que a minha (re)conversão acontece dia a dia porque a minha espiritualidade é peregrina.

     

Nenhum comentário:

Postar um comentário